Os defensores do FMI querem fazer
crer que o fim da recessão é testemunha da eficácia das políticas do Fundo.
Bobagem. Toda a recessão acaba algum dia. Tudo que o FMI fez foi agravar as
recessões tornando-as mais profundas, mais prolongadas e mais difíceis (Joseph
Stiglitz ex-economista chefe do Banco Mundial). Confira aqui. Imagem daqui
"[...] Os Estados Membros que decidirem tomar a educação financeira e do consumidor realmente a sério – da sala de aula até à sepultura – são os que vão construir uma vantagem competitiva real a médio prazo." Charlie McGreevy, Comissário Europeu para o Mercado Interno e Serviços
domingo, 6 de setembro de 2020
AUSTERIDADE FISCAL E MONETÁRIA
No contexto da crise do Leste
asiático e de outras crises, diz que o que é importante é a austeridade fiscal
e monetária. Preocupa-se mais com o impacte ao nível dos investidores
estrangeiros do que com a fuga de capitais de investidores nacionais. Pouco se
preocupa com o impacte na economia da agitação social e política gerada pelas
políticas adoptadas. Vou referir apenas um exemplo: em finais de 1997, muitos
de nós dissemos que as políticas de extrema austeridade que o FMI estava a
impor à Indonésia iriam, muito provavelmente, causar problemas reais de agitação
social numa sociedade que já tinha antecedentes desse tipo e que estava
etnicamente fragmentada. O FMI não prestou qualquer atenção a essas
advertências. Com efeito, fez ainda pior. Numa altura em que a taxa de
desemprego estava a aumentar acentuadamente — aumentou dez vezes — e os
salários reais estavam em queda (baixaram cerca de um terço) decidiu agravar a
situação, suspendendo os subsídios de alimentação e de combustíveis concedidos
às pessoas mais pobres. Foi deitar achas para uma fogueira que estava prestes a
deflagrar e que, efectivamente, deflagrou no dia seguinte. (Joseph Stiglitz ex-economista chefe do Banco
Mundial). Confira aqui. Imagem daqui
CAPITALISMO E DEMOCRACIA
É no
território da linguística de um neoliberalismo pronto a servir, que habitam a
mentira, a demagogia e uma dimensão totalitária e indecorosa da política. É
pois desejável ressignificar as coisas, o mundo e a sociedade, pugnando pela
construção de um modo alternativo ao modelo neoliberal, numa época em que a
distinção entre capitalismo e democracia parece ter sido esbatida e a liberdade
reduzida a uma estratégia de mercado
Imagem daqui
A MUNDIALIZAÇÃO DA ECONOMIA
Atrás da expressão neutra da “mundialização da economia” e
seu corolário já mais explícito da “vitória do mercado”, esconde-se um modo
específico de funcionamento e de dominação política e social do capitalismo. O
termo “mercado” é a palavra que serve hoje para designar pudicamente a
propriedade privada dos meios de produção (FrançoisChesnais in "As Dívidas Ilegítimas")
ACERCA DO PESO DO ESTADO EM PORTUGAL
A ladainha neoliberal reza assim: "O peso do Estado em Portugal é
excessivo, a carga fiscal excessiva. O Estado asfixia a economia privada
consumindo demasiados recursos. Por isso o país não pode crescer nem
desenvolver-se". O peso do Estado em percentagem do PIB seria, pois,
demasiado elevado para o nosso país. Dado este mote, os comentadores do costume
fazem na praça pública o "responsório".
A URGÊNCIA DE UM EXCEDENTE PRIMÁRIO PARA A REDUÇÃO DA DÍVIDA
O crescimento da dívida pública tem
sido esmagador. O seu impacto foi agravado por ter coincidido com a rápida
expansão da dívida privada.
No final de
2012 o rácio da dívida pública era 2,4 vezes mais elevado do que no final de
1999, quando se iniciou a União Económica e Monetária. Trata-se de um
substancial aumento de 72 pontos percentuais (p.p.) do PIB, dos quais 43 pontos
registados até ao final de 2010. Em termos absolutos, o stock de dívida mais do
que triplicou (aumento de 235% ou 143,5 mil milhões de euros), enquanto a
riqueza produzida anualmente apenas aumentou 39% em termos nominais (ou 46,6
mil milhões).
A que se
ficou a dever este aumento de 143,5 mil milhões no stock de dívida entre 1999 e
2012? Os ajustamentos défice-dívida explicam ¼ desse acréscimo, mas o principal
factor foi obviamente a acumulação de sucessivos défices orçamentais, que
explicam ¾ do aumento. Os referidos ajustamentos correspondem a operações
financeiras que têm impacto na dívida, mas não no défice (ou vice-versa). Estes
têm sido particularmente relevantes para o crescimento da dívida no decurso do
programa de ajustamento em razão dos apoios concedidos ao sector financeiro e
do aumento de depósitos do Estado. Em 2012, a dívida líquida desses depósitos
seria 10 p.p. do PIB mais baixa, sendo expectável uma redução dos depósitos
para um nível normal após o retorno a pleno financiamento em mercado. Contudo,
o principal factor subjacente ao aumento da dívida foi a acumulação de défices
orçamentais, que totalizou 107,9 mil milhões de euros em termos acumulados.
Deste montante, 61,6 mil milhões correspondem ao pagamento de juros da dívida e
46,2 mil milhões à acumulação de défices primários. O impacto do défice na
dívida seria ainda mais elevado não fosse o extenso recurso a medidas
extraordinárias, que permitiram reduzir o défice em mais de 20,9 mil milhões,
em termos acumulados, sendo exemplos recentes as várias transferências de
activos de fundos de pensões para a esfera pública (em troca das
correspondentes responsabilidades futuras).
Que ilações
se podem retirar para o futuro? Primeiro, existe uma imperiosa necessidade de
reduzir o rácio de dívida. O contínuo aumento do "stock" de dívida
implicou crescentes encargos com juros, o que por sua vez gerou mais dívida,
dado que não se registaram excedentes primários. O recurso a mais endividamento
para pagar os juros contribuiu para o sugestivo "efeito bola de neve".
Travar o crescimento deste encargo com juros também requer que os custos das
novas emissões sejam comportáveis, o que exige, entre outras condições que não
dependem só dos portugueses, planos orçamentais a médio prazo exequíveis.
Adicionalmente, as regras europeias obrigam a reduzir o excesso de dívida (face
aos 60% do PIB) em 20 anos. Segundo, para se conseguir reduzir o rácio da
dívida Portugal tem de atingir, e manter, um excedente primário significativo:
a despesa pública antes do pagamento de juros tem de ser inferior à receita. De
acordo com as simulações do Conselho das Finanças Públicas, divulgadas em Maio
e disponíveis no Relatório n.º 3/2013, em www.cfp.pt, para se conseguir o
objetivo de redução do rácio da dívida o excedente primário teria de ser
permanentemente superior a 2,5% do PIB. São assim necessários pelo menos mais 4
p.p. do PIB de consolidação orçamental adicional face a 2012, atendendo a que o
défice primário ajustado foi de 1,5%. O nível de dívida alcançado não permite a
manutenção de défices primários, sob pena de uma trajectória explosiva. A
necessidade de consolidação orçamental adicional não é opcional. É, além do
mais, um factor de credibilidade indispensável para atrair o investimento capaz
de promover o crescimento económico que, por seu turno, a facilitaria.
Nota: A opinião aqui expressa é a do autor, nãocoincidindo necessariamente com a do CFP.
Vogal do Conselho das Finanças Públicas | Professor Auxiliar da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
Vogal do Conselho das Finanças Públicas | Professor Auxiliar da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
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